E aí eu peguei o molho de chaves daquele chaveiro velho com mensagem apagada escrita nele e que eu nem imaginava quais portas abriam. Peguei também o cartão, o caderno, a caneta, o dinheiro, a identidade e a calça mais surrada que eu tinha. E quem me via na rua, nos degraus, no ponto e por aí andando nem imaginava que eu trajava roupa de quem vai desaparecer. E quem via meus olhos castanhos na janela do ônibus brilhando contra o sol nem imaginava a tristeza e a mágoa que continha dentro deles. Se via minha mochila verde de alça rasgada e espuma aparecendo não imaginava o peso que minhas costas suportaram. No aeroporto, duvidavam que eu iria embarcar, mas cê sabe, tem tempo que as pessoas não se arrumam tanto para um vôo. Meu destino era segredo, minha partida era surpresa, meus dias eram contados. A dor da morte anunciada nem me doía tanto, um diagnóstico a mais, uma opinião médica a mais, um a menos no mundo, pensavam. Pensavam, mas não diziam. E se diziam, era se cuide, você tem que lutar, não se entregue assim, mas eu caguei para isso. Como caguei para quem achava que eu não iria suportar as dores, sendo que o que me doía mais estava no peito e na lembrança, e era assim que eu morria por dentro há algum tempo. E aí eu fui, sozinho, calado, em busca do meu esquecimento. Meu abraço eu distribuí aos poucos e para poucos. Ligações eu não fiz, favores eu não pedi, despedidas eu não marquei. Roubei um beijo dela e só, e dessa vez roubei como nunca, crime perfeito, pra nunca mais cometer. Fui. Sumi. Definhei. Despedacei e esfacelei como um pedaço de nada. Suportei as dores da passagem com ternura, com saudade e com o coração doendo. Eu sabia que um novo lugar me aguardava. E aí eu peguei o molho de chaves daquele velho chaveiro com mensagem apagada escrita nele e que eu nem imaginava quais portas abriam. E não consegui abrir porta, janela, portão e porra nenhuma. Consegui abrir uma fresta, e por lá respirei meus últimos instantes de ar puro. E já que eu não conseguia esquecer, me fiz esquecer. E quem antes me via na rua, não me viu mais.