E aí eu peguei o molho de chaves daquele chaveiro velho com mensagem apagada escrita nele e que eu nem imaginava quais portas abriam. Peguei também o cartão, o caderno, a caneta, o dinheiro, a identidade e a calça mais surrada que eu tinha. E quem me via na rua, nos degraus, no ponto e por aí andando nem imaginava que eu trajava roupa de quem vai desaparecer. E quem via meus olhos castanhos na janela do ônibus brilhando contra o sol nem imaginava a tristeza e a mágoa que continha dentro deles. Se via minha mochila verde de alça rasgada e espuma aparecendo não imaginava o peso que minhas costas suportaram. No aeroporto, duvidavam que eu iria embarcar, mas cê sabe, tem tempo que as pessoas não se arrumam tanto para um vôo. Meu destino era segredo, minha partida era surpresa, meus dias eram contados. A dor da morte anunciada nem me doía tanto, um diagnóstico a mais, uma opinião médica a mais, um a menos no mundo, pensavam. Pensavam, mas não diziam. E se diziam, era se cuide, você tem que lutar, não se entregue assim, mas eu caguei para isso. Como caguei para quem achava que eu não iria suportar as dores, sendo que o que me doía mais estava no peito e na lembrança, e era assim que eu morria por dentro há algum tempo. E aí eu fui, sozinho, calado, em busca do meu esquecimento. Meu abraço eu distribuí aos poucos e para poucos. Ligações eu não fiz, favores eu não pedi, despedidas eu não marquei. Roubei um beijo dela e só, e dessa vez roubei como nunca, crime perfeito, pra nunca mais cometer. Fui. Sumi. Definhei. Despedacei e esfacelei como um pedaço de nada. Suportei as dores da passagem com ternura, com saudade e com o coração doendo. Eu sabia que um novo lugar me aguardava. E aí eu peguei o molho de chaves daquele velho chaveiro com mensagem apagada escrita nele e que eu nem imaginava quais portas abriam. E não consegui abrir porta, janela, portão e porra nenhuma. Consegui abrir uma fresta, e por lá respirei meus últimos instantes de ar puro. E já que eu não conseguia esquecer, me fiz esquecer. E quem antes me via na rua, não me viu mais.
Onde o que sou se afoga
quarta-feira, 26 de agosto de 2015
quarta-feira, 29 de janeiro de 2014
Insônia
Sei que quando eu acordar vou me levantar, arrumar a minha cama, preparar o pão com ovo das meninas, acordar todo mundo, adoçar o café e ler o jornal de hoje enquanto fumo o meu cigarro na varanda da nova casa. Sei que já se aproxima do terceiro mês que larguei tudo para buscar a felicidade, numa tentativa de passar a vida a limpo num papel em branco que seria o Rio de Janeiro. Sei que vou precisar de menos sono, de mais coragem e menos saudosismo. Sei que eu sonhava que naquela altura da vida eu estaria sendo acordado por ela, moça que me ama, dama e dona dos meus sonhos, enquanto ela preparava o meu café forte e com muito açúcar, enquanto ela fazia o caça palavras do jornal de hoje e confrontava os nossos signos, enquanto eu já não fumava mais. E ela me diria palavras doces antes de calar meu lamento com os seus lábios. Amarga vida, que de tão amarga, impregna o céu da minha boca e o fundo da minha alma. É que ninguém adoça meus doces sonhos.
sábado, 25 de janeiro de 2014
Divino
Hoje acordei com os olhos nas estrelas, o frio me acolheu, o vento me acariciou e a água da chuva me fez sorrir e levantar. Hoje o velho ganhou uma pena, o jovem ganhou um lápis e ambos escreveram o mesmo livro. Hoje o pai beija o rosto do filho e o presenteia com o afago da ternura do seu amor incondicional. Hoje a mãe enfrenta todos os monstros do seu filho, o esconde dos seus próprios medos e dúvidas e diz que está tudo bem. Hoje o estranho do lado limpa suas lágrimas, a estranha do lado beija o seu rosto e uma menina faz com que sorria por simples retribuição. Hoje um livro antigo revela tudo o que é preciso saber. O vento acalma, a chuva acalma, os olhos fecham novamente. A noite se faz dia, o céu se faz presente. Hoje um homem por amor oferece sua vida a um desconhecido. Uma voz canta, um violão toca, um teclado chora todas as suas felicidades. Sorrir já não é impossível pela verdade, nem obrigação ou conveniência, mas consequência do amor que voa em panapaná. Que tudo seja repetitivo como o hoje.
(escrito no dia 14/10/2013)
(escrito no dia 14/10/2013)
sexta-feira, 24 de janeiro de 2014
Dor elegante
Um homem com uma dor
É muito mais elegante
Caminha assim de lado
Com se chegando atrasado
Chegasse mais adiante
É muito mais elegante
Caminha assim de lado
Com se chegando atrasado
Chegasse mais adiante
Carrega o peso da dor
Como se portasse medalhas
Uma coroa, um milhão de dólares
Ou coisa que os valha
Como se portasse medalhas
Uma coroa, um milhão de dólares
Ou coisa que os valha
Ópios, édens, analgésicos
Não me toquem nesse dor
Ela é tudo o que me sobra
Sofrer vai ser a minha última obra
Paulo Leminski
Não me toquem nesse dor
Ela é tudo o que me sobra
Sofrer vai ser a minha última obra
Paulo Leminski
quarta-feira, 22 de janeiro de 2014
Recomeço
Depois de uns 6 anos, resolvi voltar a escrever com uma certa frequência. Junto com a vontade de colocar em palavras (minhas ou não) tudo o que eu vivi e vivo, senti e sinto, amei e amo, também vejo a necessidade de produzir palavras para pessoas que eu admiro ou que simplesmente marcaram de alguma forma a minha vida, o meu dia ou um instante de luz. Para mais, quero viver intensamente, amar incondicionalmente e estar mais próximo do amor e da ternura. Sim, eu encontrei ao menos o que norteia o meu objetivo, os meus sonhos, os meus planos: estou, como nunca estive, mais perto do caminho.
Que eu tenha perseverança e motivação para, não só escrever diariamente, como viver da forma que pretendo. Muito, mas muito mais que um compromisso, é um sentimento, daqueles que balança as pernas e inunda a alma.
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Primeira postagem. :)
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